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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Tony Ramos, o comediante: E não é que ele é mesmo engraçado?

Aos 60 anos e dono de uma carreira pontuada por galãs certinhos, Tony Ramos revela sua veia de comediante no cinema e na TV


Marcelo Bortoloti

Oscar Cabral

Comediante
Tony Ramos como Opash, seu personagem em Caminho das Índias. Ele se irrita quando insinuam que não tem humor. Na infância, era fã de Oscarito e Jerry Lewis


Quando criança, Tony Ramos queria ser comediante. Pintava um bigode no rosto para imitar os trejeitos de Jânio Quadros, era fã de Jerry Lewis e dizia que um dia seria igual a Oscarito. Não foi escolha sua a trilha de galã certinho e bem-comportado construída ao longo de 45 anos de televisão, primeiro na TV Tupi e mais tarde na Rede Globo. Mas esse tipo, que o tornou um dos atores mais queridos do Brasil, lhe caiu bem desde o início. E, embora tenha feito algumas incursões pela comédia, Tony acabou sendo levado a uma opção até exagerada pelo bom-mocismo na TV. Nas quarenta novelas em que atuou, ele só foi vilão duas vezes – e vilão arrependido, regenerado no fim da trama. O que nem ele esperava é que, aos 60 anos, sua carreira desse uma guinada justamente em direção à comédia. Depois do estouro de Se Eu Fosse Você e Se Eu Fosse Você 2 (este, com 6 milhões de espectadores, é a maior bilheteria do cinema brasileiro nos últimos vinte anos), em que troca de papel com Glória Pires, Tony fez de Opash, de Caminho das Índias, um dos personagens mais marcantes e divertidos da trama de Glória Perez.

Opash, pai do protagonista Raj (Rodrigo Lombardi), é um comerciante indiano sério, apegado a valores tradicionais, que sofre um choque cultural fenomenal ao desembarcar no Brasil para tentar contornar o rolo em que o filho se meteu ao engravidar Duda (Tania Khalill), a namorada que foi trocada por Maya (Juliana Paes). Numa cena exibida há duas semanas, Opash foi a uma boate no Rio de Janeiro acompanhado por Chiara (Vera Fischer) e acabou tirado para dançar por duas mulatas em trajes mínimos. O misto de constrangimento, espanto e encantamento de Opash ao combinar estranhíssimos passos de "samba" com gestos de dança indiana resultou em um dos melhores momentos da novela até agora, com toques que fazem lembrar Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão. Nos capítulos que estão no ar, Opash já retornou à Índia, mas o humor resultante do choque cultural continua em evidência, como nas cenas em que ele mostrou as fotos da viagem à sua mulher, Indira, tentando convencê-la de que acha muito normal a quase nudez das brasileiras. A vida do personagem vai passar por uma reviravolta, quando ele descobrir que é filho de seu arqui-inimigo Shankar (Lima Duarte), uma situação que porá em xeque todas as suas convicções. Mas o viés cômico será mantido, inclusive com outras viagens ao Brasil, onde é possível explorar de forma mais saborosa o choque cultural.

Tony Ramos é bom em contar casos e piadas, o que se orgulha de fazer "com a alma", em sua própria definição. Isso exige um timing preciso, que o ator usa muito bem em cenas cômicas. Mas a chave de seu humor é o que o diretor Daniel Filho, de Se Eu Fosse Você, define como "construção minimalista" e o próprio ator resume ao explicar por que o episódio da boate ficou tão engraçado. "O texto era bom, eu não precisava carregar nas tintas", diz. Essa economia, que impede a transformação do que é cômico em algo simplesmente caricatural, torna-se possível pela minúcia com que Tony constrói seus personagens. No caso de Opash, por exemplo, a forma de olhar as pessoas quando chegou ao Brasil foi inspirada no olhar curioso e um tanto ingênuo que os técnicos indianos dirigiam à equipe da Rede Globo durante o período de gravação na Índia. O cabelo, com fios longos e gel, foi copiado dos comerciantes de tecido que ele conheceu no país. (Até o jeito de falar envolve uma teoria, que nem é o caso registrar: sotaque em novela da Globo é sempre aquela maluquice, não importa quem seja o ator). O mesmo método foi usado na construção do Cláudio de Se Eu Fosse Você. Para não converter o personagem num travesti, Tony Ramos estudou inicialmente a maneira de andar e de falar da atriz Glória Pires, com quem faz par no filme e em quem se transforma. Em seguida, passou a observar atentamente os trejeitos de sua mulher, Lidiane, com quem vive há quarenta anos. "Fui estudando o jeito como ela fala com os cachorros, treinando gestos mais delicados", conta o ator, afinando a voz para demonstrar ao repórter de VEJA como chegou ao personagem. "Tony tem timing e inflexão. Poderíamos regravar todos os filmes do Oscarito com ele no papel principal que seria um sucesso", diz o humorista Chico Anysio, que também atuou no filme.

Tony Ramos diz que seu conhecimento da televisão brasileira o qualificaria para um trabalho nos bastidores, como executivo – ou ainda como autor de novelas (uma ambição que parece realmente acalentar). É improvável que a Globo o estimule a passar para o outro lado. Ele pertence à primeira linha de atores da emissora, com salário mensal de 60 000 reais, mais 40% de bonificação quando está no ar (seu cachê em Se Eu Fosse Você 2 foi algo em torno de 80 000 reais). Tal qual um personagem do noveleiro Manoel Carlos, ele mora no Leblon. Anda sempre a pé pelas ruas e procura conversar com fãs que o abordam. Boa-praça, falante, Tony dificilmente perde o bom humor. Não vê o menor problema nas incontáveis piadas sobre seu corpo peludo, inclusive as do Casseta & Planeta que, parodiando o personagem Miguel, em Laços de Família, mostravam a empregada varrendo os pelos do sofá da casa de Helena (Vera Fischer) após uma cena de amor. Só uma coisa o irrita: quando a imagem de cidadão respeitável, que marcou seus personagens, e que cultiva em sua vida pessoal, é associada a um sujeito chato e sem humor. "Em casa, ele é um cara superengraçado", diz Lidiane. Agora dá para acreditar.




Fonte: Veja

domingo, 25 de janeiro de 2009

"Voltei para a Globo mais valorizado", diz Márcio Garcia

 
Mariana Trigo
 
Luiza Dantas / Carta Z Notícias/TV Press
Márcio Garcia fala sobre carreira profissional na TV
Márcio Garcia fala sobre carreira profissional na TV

Do alto de seu 1,90 m de altura, Márcio Garcia está sempre com uma postura impecável, o que contrasta com seu jeito mais malandro, de quem cresceu nas areias do Rio praticando esportes. Com um arrastado sotaque carioca, chega a ser difícil imaginar o ator na pele de um indiano que sofre preconceitos ao se apaixonar pela sonhadora Maya, de Juliana Paes.

Em Caminho das Índias, Márcio interpreta Bahuan, um "intocável" - pessoa repelida pela religião hindu e malvista aos olhos de todas as castas na Índia. Após viver 10 anos nos Estados Unidos, Bahuan volta à terra natal para herdar os bens de seu pai adotivo, Shankar, vivido por Lima Duarte.

No entanto, o forasteiro sedutor não esperava se apaixonar por Maya, mulher de casta superior, que rejeita qualquer proximidade dos "intocáveis". Em seu primeiro protagonista, o ator de 39 anos não disfarça o orgulho por estar em um dos melhores momentos na carreira.

Depois de passar cinco anos na Record, onde apresentou o programa de variedades O Melhor do Brasil, e ter vivido alguns personagens, como um policial em Vidas Opostas, Márcio retornou para a Globo. Assinou um contrato de seis anos como ator e apresentador, dez anos depois de apresentar o bem-sucedido dominical infantil Gente Inocente na emissora.

"Consegui voltar para a Globo e muitos não conseguiram. Estou num dos melhores momentos da minha carreira. Só havia feito personagens muito contemporâneos, parecidos comigo. O Bahuan é um ápice para qualquer ator", anima-se.

Você saiu da Globo e foi para a Record após Celebridade e, cinco anos depois, retorna como protagonista do horário nobre e com salário de ator e apresentador. Como aconteceu o convite do diretor Marcos Schechtman para esse regresso?
Quando terminou meu contrato com a Record, não chegamos a um acordo financeiro e tivemos divergências de ideais nas produções. O Marcos Schechtman soube disso e me ligou para falar sobre a novela. Nisso, começou todo um processo de sedução e a Globo fez uma proposta que me atraiu. Voltei também pelo lado emocional. Trabalhei 11 anos na Globo e isso contou muito. Fiquei feliz com o crédito que a emissora me deu. Estava querendo voltar a atuar e fiquei fascinado com esse universo da Índia que a Glória (Perez) me apresentou. Confortou-me fazer uma novela, mudar um pouco, ter tempo para novas idéias, outra rotina.

Mas o cotidiano de gravação de novela é muito mais trabalhoso que o de apresentador.
Sem dúvida. Mas esse protagonista me motivou. Tive a oportunidade de me esvaziar de todos os meus preconceitos, tudo que estava formatado pela minha educação e meus hábitos ao longo da vida. O Bahuan não pertence ao meu mundo e é absolutamente diferente de todos os meus outros personagens. Absorvi essa cultura para entender um pouco desse universo tão complexo, as castas, a religião milenar. No Ocidente, estamos acostumados a conviver entre judeus, ateus, umbandistas, católicos. Lá a fé de todos está relacionada com a família, a cultura e o negócio. Não existe esse individualismo do Ocidente. Essa forma de pensar aglutinada é diferente do que estamos acostumados. Pude absorver esses costumes sem julgar. Despi-me de todos os preconceitos.

Quais pesquisas você utilizou para compor esse personagem, desde os workshops para a trama até sua viagem à Índia?
Todos que pude, como aulas de dança, culinária, vestimentas, como eles se limpam... Aprendi que os indianos só comem com a mão direita e só se limpam com a esquerda, sem guardanapos. Assisti a muitos filmes, como oUm Casamento à Indiana, mas nada se compara à viagem. Nunca havia estado na Índia. Foi lá que comecei de fato a entender como são as pessoas, toda aquela miséria. Eles têm mais de mil deuses, é tudo muito espiritual, tudo tem a ver com o carma deles. Eles não almejam nada dos outros, você não vê inveja. Foi uma grande lição perceber a conformidade deles.

Essa conformidade é justamente o que seu personagem não tem. Mesmo como "intocável", ele luta pelo amor de uma mulher de uma casta superior. Como isso vai ser mostrado?
É um Romeu e Julieta diferente. O fato de ele ser um "intocável", o faz um cara excluído, um pária. Lá as castas são herdadas, não conquistadas. Vem de geração em geração. Por isso, o Bahuan duvida se tem o direito de se envolver com a Maya. Na Índia, o casamento é entre famílias. A mulher vai morar na casa da família do marido. Ele vai viver neste início entre a cruz e a espada. Na Índia, dizem que o casamento é uma panela de água fria com fogo baixo. Com o tempo, vai aquecendo e se transformando. Na nossa cultura, a gente casa com a panela fervendo e, com o tempo, vai esfriando. Mas o amor dele é avassalador e dramático porque a relação entre os dois pode significar uma desgraça para ambas as famílias durante gerações por ele ser "intocável". Isso deve gerar muita polêmica para nós, ocidentais.

Que costumes ligados ao casamento e à relação entre as pessoas mais impressionaram você?
As mulheres não andam sozinhas. Tem sempre alguém: uma tia, uma prima, para realmente conter os impulsos, as possibilidades de elas se envolverem com os caras. Não existe beijo, nem no rosto. Quando as brasileiras chegam lá e dão um beijo no rosto de um cara e o abraçam, eles acham que elas querem casar. O cara já fica tenso, começa a subir pelas paredes: "nossa, ela beijou meu rosto" (risos). Eles não fazem isso nem antes de casar com suas mulheres. Para nós, o que é dar um abraço? O mais difícil nesse processo todo é eliminar o preconceito que a gente tem sobre sedução, sobre casamento. Na Índia não existe uma relação apenas entre um homem e uma mulher. É sempre a família. Tem também a questão do dote. Os pais perguntam para os caras interessados na filha: "O que você me oferece para que minha filha faça parte da sua família?". Negociam casa, dinheiro, carro. Não é interesse diante dos olhos orientais. É uma prática milenar. Não é fácil eliminar tudo que aprendi para vestir uma personagem desses.

Quais os demais conflitos culturais que serão mostrados na história através do Bahuan?
Desde o início, a disparidade com os nossos costumes é gritante pela ótica deles. O Bahuan saiu da Índia no final da adolescência e foi morar nos Estados Unidos para estudar. Ele volta à sua terra através de um chamado do Shankar, seu pai de criação e mestre (vivido por Lima Duarte). O Bahuan vai receber seus dotes na Índia. Lá, quando uma pessoa, no caso o Shankar, chega na maturidade, na velhice, tem de abrir mão dos bens materiais para fazer a passagem espiritual. Ele dá tudo o que tem para o Bahuan para entrar na fase da meditação. Tem sido um mergulho tão grande nessa cultura... é fascinante poder ter contato com outros mundos novamente através da atuação. Senti muita falta disso.

Mas você atuou em novelas na Record, apesar de ser em participações, porque você estava no comando do programa. Você tem pensado como vai ser o tipo de programa que quer apresentar na Globo?
Por enquanto, ainda estou focado demais no Bahuan, em todo o processo que envolve esta novela. Mas, quando a trama já estiver por volta do capítulo 80 ou 90, já devo ter fôlego para começar a ter idéias para o programa. Penso em fazer uma produção diferente, que tenha um cunho social, mas que não caia num lugar comum. Sei que isso parece utópico. Não quero só trabalhar com entretenimento, mas ajudar na formação das pessoas, passar informação, incentivar a cidadania, dar exemplos bacanas. Tenho de usar o veículo que tenho nas mãos e a imagem que construí ao longo desses anos para alguma coisa útil.

De portas abertas

Márcio Garcia não fez tantos personagens no cinema como ator, mas já possui uma extensa carreira como dublador. Em 2002, o ator estreou em longas de animação através da voz do personagem Diego em A Era do Gelo. De lá para cá, dublou filmes como Dragon Blade, A Terra Encantada de Gaya, A Era do Gelo 2 e Putz! A Coisa Tá Feia, na voz do personagem Feio quando adulto. "O universo infantil sempre me fascinou. Adoro trabalhar para crianças", avisa.

Mas a praia de Márcio é realmente colecionar galãs na TV. Após estrear na Globo como o rústico Cassiano em Tropicaliente, há 15 anos, Márcio Garcia viveu o Guiga de Cara e Coroa e o atlético Adriano de Malhação. Mas foi como o oportunista Marcos, em Celebridade, que o ator mais se destacou.

O jeito indolente do aprendiz de vilão ao lado da pérfida Laura, de Cláudia Abreu, se ressaltou na carreira do ator. No entanto, foi como apresentador do semanal Gente Inocente, na Globo, que Márcio caiu no gosto popular ao se mostrar tão à vontade e integrado ao universo infantil. No ar entre 1999 e 2002, a produção, que também contava com um elenco fixo infantil, abriu novas portas em sua carreira. "O sucesso desse programa me fez conquistar novos caminhos, como apresentar um programa de entretenimento na Record e poder voltar para a Globo com uma promessa de programa no meu contrato", avalia.

Embora na Record o apresentador tenha comandado "games" e quadros no estilo Namoro na TV, em seu retorno para a Globo, Márcio pretende investir em breve numa produção mais educativa. "Aprendi muito na Record. Mas, na Globo, você entra, senta e viaja. Na Record, de vez em quando eu tinha de pegar no volante, passar a marcha, mexia na massa. Isso me fez amadurecer", compara. "Voltei para a Globo mais valorizado, mas isso não afeta o meu ego", assegura.

Músculos em evidência

Márcio Garcia tem treinamento de atleta. Além de dar conta das funções de ator e apresentador, o carioca bronzeado de praia mantém uma rotina de muito suor para manter seus 90 kg distribuídos em 1,90 m e apenas 7% de gordura corporal. Para isso, faz aulas de defesa pessoal, boxe e jiu-jítsu duas vezes por semana, pratica musculação três vezes por semana, corre na areia e na esteira, joga futevôlei, futebol e ainda pratica natação. "Sou vidrado em esporte. É onde me recarrego", justifica.

Trajetória Televisiva

# Tropicaliente (Globo, 1994) - Cassiano. 
# Cara e Coroa (Globo, 1995) - Guiga. 
# Anjo de Mim (Globo, 1996) - Nando Monterrey. 
# Anjo Mau (Globo, 1997) - Luiz Carlos Machado. 
# Era Uma Vez (Globo, 1998) - Taxista. 
# Malhação (Globo, 1998) - Adriano. 
# Gente Inocente (Globo, 1999) - apresentador. 
# Andando Nas Nuvens (Globo, 1999) - Arnaldo San Marino. 
# Celebridade (Globo, 2004) - Marcos Rangel. 
# Prova de Amor (Record, 2005) - Paulo Barão. 
# Avassaladoras (Record, 2006) - Caíque. 
# Vidas Opostas (Record, 2006) - Alencar. 
# O Melhor do Brasil (Record, 2007) - apresentador. 
# Caminho das Índias (Globo, 2009) - Bahuan. 
 

TV Press