Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...
E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...
Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego...
Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...
Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo
E não consegui dormir...
Vamos sair!
Mas estamos sem dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...
Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...
Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...
Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...
A música “Teatro dos Vampiros” é emblemática em vários aspectos. Primeiramente, ela mostra a diversidade cultural, bem como a erudição da banda em abordar vários temas concatenados em uma ideia principal, que seria o conflito do jovem, no início da idade adulta, enfrentando a dificuldade de se estabilizar socialmente, no qual o não reconhecimento, típico do pensamento do jovem “A riqueza que nós temos, Ninguém consegue perceber” é latente em toda a letra. Junto com ela, temos a fuga do cotidiano, e nessa, já encontramos um paradoxo de ordem econômica “Vamos sair - mas não temos mais dinheiro, Os meus amigos todos estão procurando emprego”, trazendo à tona a dificuldade financeira que esse grupo de amigos enfrenta. Ainda temos a inflexão e o resgate ao passado, no qual há múltiplas temporalidades carregadas de dificuldades e sentimentalidades.
O futuro apresenta-se velozmente, “E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.”, causando no indivíduo a proximidade mais rápida com a idade adulta, exemplificada em “eu homem feito”. Contudo, mesmo esse homem
O formado, ainda sente medo, a tal ponto que esse sentimento não deixa o mesmo “conseguir dormir”. Esse medo borbulhante em toda a música perpassa pelo passado que se foi, pelo presente inconstante e pelo futuro incerto, pois na tentativa de obter reconhecimento na vida, os jovens, nesse período, dissipam seus grupos “Quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo”, deixando o sujeito sozinho, pois perdeu seus amigos que compartilhavam entre si seus anseios e medos, para o mundo e a estrutura do próprio capitalismo, que força o jovem a mudar de localidade, escolher um ramo de estudo ou atuação. Por fim, há uma rendição do futuro a questão da sorte, no qual ocorre uma promoção de fragmentação do sujeito, o eu - fragmentado, por não conseguir no horizonte da vida, individual e em grupo, um prognóstico favorável; entregando assim “o alvo e a artilharia”. Ainda, podemos notar que devido aos obstáculos vividos, o sujeito remonta ao individualismo, pois mesmo reconhecendo as dificuldades de outros sujeitos, o mesmo não possui “pena de ninguém”.
Esse quadro caótico de ascensão de jovens a idade adulta, os elementos e rupturas geracionais, os conflitos diários, a dificuldade financeira, a fuga do cotidiano, dentre outras elencadas, promovem nos indivíduos a formação de um teatro, onde não são os atores principais, sendo os “vampiros”, possivelmente fazendo alusão ao capitalista, ou ao mundo capitalista, que simbolicamente, retiram a energia e força de viver do grupo e em grupo, em detrimento dos padrões impostos pela modernidade. Essa e seus tentáculos, pela narrativa, dificultam, aniquilam, fragmentam a relação do jovem com seu grupo. “Quando um jovem não consuma essas relações íntimas com os outros, no final da adolescência ou início da idade adulta ele pode procurar relações interpessoais sumamente esteriotipadas e acaba retendo um profundo sentimento de isolamento”. (ERIKSON, 1987, p.136)
17 Legião Urbana. Teatro dos Vampiros. Álbum V: EMI-ODEON, 1991.
Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 12
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