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domingo, 20 de maio de 2012

Tribos. Índios isolados no Brasil


ÍNDIOS ISOLADOS NO BRASIL
Eles existem como gente invisível, e vivem em fuga a vida na floresta. Se escondem nas sombras, e podem, por exemplo, passar anos em uma caverna praticamente sem sair dela – como aconteceu com uma família de índios ava-canoeiro, a 200 km de Brasília, nos anos 1980. Nas áreas mais remotas da selva amazônica vivem índios que, de forma heróica, se afastam do contato e do convívio com a população que se instalou no Brasil. São os índios isolados – também chamados, pelos antropólogos, de comunidades “autônomas”.
Últimos índios akunt'su, Corumbiara, em Rondônia Araquém Alcântara

De acordo com Elias Bigio, coordenador Geral de Índios Isolados da Funai, há hoje 71 grupos indígenas vivendo nessa situação. Poucos anos atrás a Funai só tinha o conhecimento de cerca de 40 povos. A maioria desses índios sabe da existência do homem branco e até já tiveram encontros acidentais, mas preferem ficar escondidos. Podem ser aldeias com centenas de integrantes, ou, nos casos mais trágicos, um, dois, três indivíduos, uma família apenas que tenha conseguido sobreviver à carnificina em que se transformou, em fatos reais, a ocupação da Amazônia. Este é o caso dos dois piripkuras contatados em agosto, assim como dos kanoê e akunt’su, em Rondônia, os juma, no Amazonas, os ava-canoeiros, em Goiás e Tocantins, entre alguns outros.

Em 1995, depois de anos se metendo nos restos de matos de fazendas no sul de Rondônia, o sertanista Marcelo dos Santos conseguiu encontrar e estabelecer contato com uma família de índios kanoê. Eram nada mais do que cinco pessoas: uma mãe, um filho homem e uma filha mulher – já mãe de um pequeno menino–, e uma sobrinha. Poucos anos depois, sobraram só os dois irmãos, o rapaz Pura e a moça Tiramantú. Ela conseguiu engravidar outra vez, com algum homem que não diz quem é, e já teve mais um filho – o outro que tinha morreu de malária, junto de sua avó. A índia prima foi morta pelos vizinhos índios akunt’su. Quando tiveram confiança na equipe da Funai, os kanoê guiaram os sertanistas barbudos até encontrar outra tribo que vivia espremida entre os caminhos de madeireiros: sete índios Akunt’su. Até hoje, os dois homens akunt’su carregam pedaços de chumbo no corpo – a marca que ficou dos massacres que extinguiram o povo. Uma das índias dessa tribo morreu quando uma árvore caiu sobre a maloca, dois anos após o contato.
Até hoje, os dois homens akunt’su carregam pedaços de chumbo no corpo – a marca que ficou dos massacres que extinguiram o povo
Perto dessas duas tribos, também na região de Corumbiara, embaixo da fumaça das queimadas e no meio de imensos pastos e uma multidão de bois brancos, há uma bola de mato que é um verdadeiro portal para outras eras da humanidade. Em oito mil hectares de mata nativa, na Terra Indígena Tanaru, vive o povo de um homem só. Esse homem é chamado de “índio do buraco”, e ele não quer saber nada de entrar em contato com gente de outros povos – inclusive já flechou sertanistas da Funai quando se aproximaram dele. O “Índio do buraco” é o que lhe sobrou de um povo isolado que foi massacrado nos anos 1980 e 1990, assassinado e envenenado por arsênico misturado a brindes de açúcar e farinha ganho das mãos de fazendeiros. Último representante de uma tribo totalmente desconhecida, com hábitos e costumes próprios (como o buraco místico que faz dentro de sua oca), ele é, também, o retrato da desumana destruição da floresta.

Não é só no Brasil que existem índios isolados, apesar de provavelmente ser aqui que exista a maior quantidade de povos nessa condição no mundo inteiro. Criado por Sidney Possuelo, em 1989, o departamento, mesmo capenga em recursos, é uma referência mundial. Ao menos no que toca a ideologia de se tentar proteger essas tribos. No Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guianas, Suriname, todas as fronteiras do bioma amazônico, ainda existem índios isolados. Ao contrario do que ocorre no Brasil, por lá eles vivem ser terras protegidas. Para tentar expandir essa política, a ONU criou o Comitê Indígena Internacional para a Proteção de Povos em Isolamento Voluntário e em Contato Inicial (Cipaci). Antes tarde, ao menos na lei começa-se a tentar proteger essas pessoas da floresta. (Fonte: Revista Trip)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Funai diz que pode haver confronto com índios isolados


A Funai (Fundação Nacional do Índio) está monitorando grupos indígenas que vivem isolados perto da fronteira do Acre com o Peru.

A migração de grupos do país vizinho para o Brasil pode causar um confronto entre índios "como não se via há mais de 500 anos", diz o indigenista da Funai Artur Figueiredo Meirelles, coordenador da frente de proteção etnoambiental de Envira (AC).

Na região de Envira, há pelo menos três etnias que nunca tiveram contato entre si ou com a sociedade.

Com a extração de madeira na Amazônia peruana e a exploração de coca, os índios nômades do Peru fogem em busca de caça e alimentos para coleta, diz o ex-coordenador da frente de proteção José Carlos dos Reis Meirelles.

De acordo com Figueiredo, é possível deduzir pela observação feita em sobrevoos que os nômades estão se aproximando dos isolados.

Caso se encontrem, a reação natural dos índios isolados é defender o território pelo combate, diz Figueiredo.

NOVAS IMAGENS

Gleison Miranda/Funai/Survival






A ONG de proteção aos índios Survival Internacional divulgou nesta segunda-feira (31) fotos de um dos três grupos de índios isolados no Acre.

Nas imagens, feitas pela Funai em março de 2010, eles aparecem com o corpo coberto de urucum, empunhando arcos e flechas. Nos cestos é possível identificar mamão e mandioca.
O mesmo grupo já foi fotografado em 2008 e é monitorado há 23 anos, de acordo com José Carlos dos Reis Meirelles. As observações são feitas à distância (por terra) ou por sobrevoos a cada um ou dois anos.

Os índios das outras duas tribos nunca foram vistos -- eles fogem para o mato quando escutem o barulho das aeronaves, diz o indigenista.

Segundo estimativas de Meirelles, há pelo menos 600 índios vivendo nos três grupos isolados --somente na comunidade fotografada são cerca de 300 índios. O número não é preciso porque é obtido com base no tamanho do território ocupado pelas tribos, no número de ocas e na área plantada.

A Funai estima que existam no Brasil 67 grupos de índios isolados nas diversas regiões do país.


Folha Online

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Índios isolados do resto do mundo chamam atenção na amazônia. Veja

Agentes da Funai fazem contato com índios de tribo isolada na Amazônia.




Sozinhos na Amazônia

Fotos de índios no Acre chamam a atenção para tribos na Amazônia e têm repercussão internacional

Reuters O Globo Online; Jornal Hoje
RIO - Chamaram atenção do mundo para a situação precária das poucas tribos isoladas ainda existentes e para o perigo com que se deparariam ao eventualmente entrar em contato com o mundo exterior.
As imagens, que ganharam destaque na imprensa internacional, foram feitas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) no mês passado, no Acre, mas divulgadas somente na quinta-feira. Elas mostram duas aldeias no meio da mata, cada uma com várias construções cobertas de palha. Elas correram o mundo e apareceram nos sites do "New York Times" e do argentino "La Nacion". Na página da "CNN", a manchete dizia: "Tribo indígena isolada vista na Amazônia".


Segundo especialistas, os índios, que aparecem nas imagens empunhando arcos e flechas, seriam provavelmente os membros remanescentes de uma tribo maior que se viu obrigada a ingressar mais profundamente na floresta, montando acampamentos cada vez menores.
- Em vez de formar uma tribo "perdida", esses índios devem ter mantido vários canais de comunicação com outros grupos ao longo dos últimos anos - disse em entrevista à Reuters Thomas Lovejoy, um especialista em questões amazônicas que preside o The Heinz Center, em Washington.


" Em vez de formar uma tribo "perdida", esses índios devem ter mantido vários canais de comunicação com outros grupos ao longo dos últimos anos "
- Acredito haver uma questão ética, a questão sobre se alguém conseguiria, no final, protegê-los de qualquer tipo de contato. E a resposta para isso é 'não'. A resposta certa é ter um tipo de contato e de mudança de forma que as próprias tribos possam administrar isso - completou Lovejoy.


A área da fronteira entre o Brasil e o Peru revela-se um dos últimos refúgios do mundo para grupos desse tipo, já que se encontram ali cerca de 50 das cerca de 100 tribos isoladas existentes no mundo todo.


Esses grupos enfrentam um perigo crescente na forma da expansão das fronteiras econômicas, em especial do lado do Peru, que tem demorado mais para criar reservas capazes de proteger as populações indígenas.


O sertanista José Carlos Meirelles, que mora há 20 anos na região, estava no helicóptero de onde foram tiradas as fotos. Ele disse, em entrevista ao "Jornal Hoje", da Rede Globo, que essas tribos estão aumentando, apesar dos conflitos com peruanos que atravessavam a fronteira em busca de madeiras nobres.

- E essa questão está fora da nossa alçada. É uma questão internacional. Não é a Funai que vai resolver, mas o governo brasileiro.


Meirelles disse ainda que essas tribos deveriam ser deixadas isoladas o máximo possível.

- Enquanto eles estiverem nos apontando flechas, tudo estará bem. No dia em que se comportarem direitinho, estarão exterminados.


Contato sempre foi prejudicial
Historicamente, o contato com o mundo exterior mostrou-se catastrófico para os índios brasileiros, que hoje somam cerca de 350 mil indivíduos, um número muito menor do que os 5 milhões da época da chegada dos europeus.


- Em 508 anos de história, de milhares de tribos que existem, nenhuma delas adaptou-se bem à sociedade no Brasil - afirmou à Reuters Sydney Possuelo, ex-autoridade da Funai que criou o departamento da fundação responsável pelos índios isolados.
Índios tentaram atingir avião com flechadas
Nos últimos anos, porém, tribos como os inanomâmi conseguiram conquistar uma proteção maior ao tornarem-se mais politicamente organizados e formarem laços com grupos conservacionistas estrangeiros.

- Não se trata de tomar essa decisão no lugar deles. Trata-se de dar-lhes tempo e espaço para que tomem essa decisão por si próprios - afirmou David Hill, do grupo Survival International.

No Peru, por exemplo, mais de metade dos murunahua morreu em virtude de gripe ou de outras doenças após terem entrado em contato com o mundo exterior pela primeira vez em 1996, como resultado da expansão da fronteira econômica, afirmou Hill.

Ver integrantes de tribos isoladas não é algo muito raro, ocorrendo uma vez a cada alguns anos na área da fronteira entre Brasil e Peru.

Agentes da Funai fazem contato com índios de tribo isolada na Amazônia


Os primeiros contatos com os korubos terminaram em morte. Em pleno século 21, o Brasil ainda tem cerca de dez mil índios que vivem longe de qualquer contato com o resto do mundo.

Na margem, cinco korubos, que vivem escondidos na mata, afastados da civilização. No barco, um linguista tenta conversar com eles.

A distância entre os dois grupos não chega a quinze metros. Mas se for medida em tempo, são 500 anos, no mínimo. Esses índios vivem de forma parecida com os que Cabral encontrou.

Há dois anos a descoberta de uma tribo perdida no Acre foi manchete no mundo todo. A Funai calcula que mais de dez mil índios ainda vivem escondidos nas florestas brasileiras.

Alguns grupos estão quase extintos. Dos akuntsu, de Rondônia, sobraram cinco pessoas. Mas o vale do rio Javari, na fronteira do Amazonas com o Peru, ainda preserva quatro grandes grupos isolados.

“Nesta região está a maior concentração de povos isolados do Brasil, inclusive confirmados. Pode ser do mundo também”, diz Elias Bigio, coordenador de índios isolados – Funai.

Esta floresta protegida, quase do tamanho de dois estados do Rio de Janeiro abriga mais de oito mil índios. Metade vive completamente afastada da civilização.

Os primeiros contatos com os korubos terminaram em morte. Imagens mostram o resgate dos corpos de quatro índios. Quem apontou o local foi um dos treze madeireiros que participaram da emboscada.

"Eles morreram muito com madeireiros, seringais. Como eles também mataram muitas pessoas na região”, comenta Rieli Franciscato, coordenador da Frente de Proteção do Vale do Javari - Funai
Eles atacam com bordunas. Por isso ganharam o nome de caceteiros. Em 1996, depois de uma briga que terminou na morte do marido da índia Maiá, uma parte dos korubos fugiu da aldeia e foi morar na beira do rio Itacoaí.

A Funai dessa vez conseguiu se aproximar deles e montou uma base a cinco quilômetros dessa tribo. Um ano depois os korubos mataram mais um sertanista.

“Só de funcionários da Funai, aqui morreram sete funcionários nessas tentativas de contato", diz Rieli Franciscato, coordenador da Frente de Proteção do Vale do Javari – Funai.

Nós fomos até uma aldeia. Vinte e sete pessoas moram em duas malocas cobertas por folhas. A tribo cresceu, está cheia de crianças. A vida não mudou muito. Os homens ainda usam bordunas pra se defender; zarabatanas e arcos pra caçar. Só falam idioma korubo.

Quem manda é a temida Mayá. É a própria cacique quem corta cabelo na tribo. Ela usa um capim afiado para raspar a cabeça no estilo korubo. Uma vez Maiá foi até Manaus fazer tratamento de saúde. Ficou assustada. “Muitos, muitos brancos”, afirma.

Agora ela usa saia para evitar os mosquitos. Cuida de duas panelas velhas, como tesouro. O que mais deseja é um motor, para a canoa da tribo.

Naquela conversa na beira do rio, o linguista Sanderson contou aos cinco índios que os parentes que fugiram da tribo há quatorze anos estavam bem; os isolados disseram que se lembravam de Maiá, mas achavam que ela estava morta.

“Não acreditaram que eles estavam vivos e com a gente ainda por cima. O principal objetivo deste diálogo com os korubos é prevenir eles sobre os riscos que eles têm, por que como eles aparecem todo verão na margem dos rios, os korubos isolados podem contrairn uma doença e se isso se dissemina, pode vir a morrer todo mundo”, diz Sanderson Soares, linguista UNB - Funai.

Os conflitos violentos ficaram no passado. O perigo que ameaça essas pessoas agora são as doenças, principalmente a hepatite e a malária.

Tawan já foi um guerreiro temido. Agora procura ajuda para a filha, no posto da Funai. Tuxi teve cinco surtos só no primeiro semestre. Chorava muito, com dores, vômito e diarréia. No grupo de Maiá, só oito não tiveram malária este ano.

Há dois anos, exames feitos em dois mil e setecentos índios revelaram que 88,7% tiveram hepatite A e 56,4% já foram contaminados pela hepatite B. Mas a Funai quer mais apoio da recém criada Secretaria de Saúde Indígena.

“É para que ela faça trabalho junto aos povos contatados e à população ribeirinha não indígena que vive naquela região, se tivermos esse povo que vive no entorno protegido, estaremos protegendo também os povos isolados”, declara Elias Bigio, coordenador de índios isolados – Funai.

A Secretaria Especial de Saúde indígena informou que, no mês passado, uma equipe de médicos foi ao vale do javari para vacinar os índios.

A partir de abril do ano que vem a secretaria assume totalmente o atendimento aos indígenas que ainda está sob a responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde.